Fotografia: o instante parado no ar

Boris Kossoy: Fotografia e História

Fotografia: o instante parado no ar

Maria Fernanda Seixas Farinha Beirão

Olhar o passado… percorrendo  as imagens que ele nos deixou… e interrogá-lo, perscrutá-lo até o tornar visível, a partir da visibilidade aparente, num outro nível de convivência onde o historiador se torna co-partilhante e co-presente desse contexto.

Boris Kossoy estabelece, assim, um caminho novo para o historiador, usando como recurso a fotografia.

Como fazer um uso rigoroso das fontes fotográficas que permita seu emprego como instrumento de pesquisa e interpretação da história? A elucidação desta questão está aliada a uma trajetória de fundamentação onde o autor chega a desvendar o sentido e natureza da imagem fotográfica. Ao se deter no momento histórico onde a fotografia tem sua origem, Boris Kossoy penetra intimamente nesse momento, no âmago do registro fotográfico, e consegue visualizar a simultaneidade dos acontecimentos que são os elementos constituintes desse ato.

Deparamo-nos assim com uma procura de radicalidade, de chegar ao fundamento, à gênese constituidora do processo denominado fotográfico: um exercício genuíno de redução fenomenológica a partir do qual chegamos a uma caracterização da essência da fotografia. E é interessante notar que, sem a preocupação de usar uma terminologia fenomenológica, Boris Kossoy inaugura silenciosamente um caminho que segue os passos da fenomenologia.

O recurso às fontes fotográficas abre novas perspectivas não só para o trabalho histórico, mas para outras áreas de conhecimento, que podem assim, através das imagens do passado, ter acesso a informações, detalhes que dizem respeito à vida em seus inumeráveis aspectos.

Boris Kossoy aproxima-se agora do sentido da fotografia: “Toda a fotografia representa em seu conteúdo uma interrupção do tempo e, portanto, da vida.  O fragmento selecionado do real, a partir do instante em que foi registrado, permanecerá para sempre interrompido e isolado na bidimensão  da superfície sensível. Um fotograma de um assunto do real sem outros fotogramas a lhe darem sentido, um fotograma apenas, sem antes, nem depois.

Sem antes, nem depois; é este um dos aspectos mais fascinantes em termos do instante contínuo recortado da vida que se confunde com o nascimento do descontínuo do documento. (…)Inicia-se, portanto, uma outra realidade, a do documento: a segunda realidade, autônoma por excelência”. (pg.28)

E o que possibilitou a existência desta segunda realidade?

“Em primeiro lugar houve uma intenção para que ela existisse; esta pode ter partido do próprio  fotógrafo que se viu motivado a registrar determinado tema do real ou de um terceiro que o incumbiu para a tarefa. Em decorrência desta intenção teve lugar o segundo estágio: o ato  do registro que deu origem à materialização da fotografia. Finalmente, o terceiro estágio: os caminhos percorridos por esta fotografia, as vicissitudes por que passou, as mãos que a dedicaram, os olhos que a viram, as emoções que despertou, os porta-retratos que a emolduraram, os  que a guardaram, os porões e sótãos que a encerraram, as mãos que a salvaram. Neste caso seu conteúdo se manteve, nele o tempo parou. As expressões ainda são as mesmas. Apenas o artefato, no seu todo, envelheceu”. (pg.29)

Mas há um fundo nas colocações do autor que se vai destacando, adensando, até se tornar uma proposta definida, quando ele  assume claramente seu posicionamento na maneira de abordar a história enveredando pelos caminhos da interpretação. O esclarecimento dos diferentes níveis de interpretação da realidade presentes  no documento fotográfico desemboca em afirmações tais como: “Não deixar de ousar na interpretação: esta é a tarefa”. (pg.79) E mais adiante: “A reunião e o exame dos documentos não substitui jamais a atividade criadora do historiador, que é a de tentar reconstruir a vida passada interpretando o pensamento, os sentimentos e as ações do homem, personagem central da história que se busca compreender”. (pg.90)

A saída de um contexto fatual que caracteriza não só o uso da metodologia mas, fundamentalmente, uma concepção de história, evidencia-se cada vez mais a partir da análise do significado das imagens fotográficas. Esta ultrapassa os aspectos técnicos e estéticos e torna primordiais os contextos sociais, políticos, econômicos e culturais. Só assim a imagem fotográfica, além de se situar no contexto histórico, se torna um documento da vida histórica: “É óbvio que a representação fotográfica reflete e documenta em seu conteúdo não apenas uma estética inerente á sua expressão mas também uma estética de vida ideologicamente preponderante num particular contexto social e geográfico, num momento preciso da história. Estética e ideologia são componentes fluidos e indivisíveis, implícitos na representação fotográfica…”(pg.86)

Recuperar o contexto histórico sócio-cultural de um dado momento histórico, penetrar o sentido vivido dos acontecimentos de uma época, conviver com os personagens dessa época para tomar contato com uma maneira de sentir, uma maneira de viver: “A reunião e o exame dos documentos não substitui jamais a atividade criadora do historiador, que é a de tentar reconstruir a vida passada interpretando o pensamento, os sentimentos e as ações  do homem, personagem central  da história que se busca compreender. (…) Não é apenas o acontecimento em si que interessa recuperar. Interessa o pensamento que levou o homem a determinada ação. É o que cumpre descobrir mergulhando na vida passada e retornando aos documentos, mergulhando na realidade passada e retornando à sua imagem fragmentariamente registrada e desta para aquela, continuamente, buscando compreender as razões psicológicas que deram origem aos acontecimentos”. (pg.90-91)

Torna-se assim cada vez mais clara uma visão fenomenológica da história onde o historiador alia ao espírito científico que  move sua presença enquanto ser humano que sai de uma ótica fria de expectador para entrar no cenário de um passado,  para ir ao encontro do modo de vida de uma época: ele torna vivos os personagens dessa época, interroga-os, respeita suas convicções. Este é, na verdade, o caminho de uma objetividade radical onde se vai ao encontro daquilo que se mostra.

No âmbito da história da fotografia Boris Kossoy já percorre este caminho: “… interessa-me conhecer a expectativa que tinham os homens das diferentes regiões e classes sociais em relação à fotografia, qual a receptividade, em termos de mercado, que o retrato fotográfico encontrou logo após o advento do meio e em épocas posteriores, e quais as diferenças ou semelhanças entre este mercado e o de outros países; interessa-me investigar as categorias sócio-econômicas dos retratados assim como dos retratistas, a postura que tinham diante  do ofício, suas origens e pretensões, suas bagagens artísticas, técnicas e culturais, entre muitos outros aspectos a serem formulados”. (pg.93-94) Em seu livro Origens e expansão da fotografia no Brasil; séc. XIX (Rio de Janeiro, MEC/Funarte, 1980), desenvolve um trabalho mostrando a relação estrita entre o desenvolvimento da fotografia e as características específicas do contexto econômico e sócio-cultural.

Mas, neste momento,  a proposta , ela está aí para o historiador: “Compete ao historiador fazer com que os personagens petrificados nos textos e nas imagens do passado saiam de sua mudez sepulcral. (…) Por maior que seja o esforço de isenção do historiador em busca da “verdade histórica”, haverá sempre subjacentes na sua interpretação múltiplos componentes que o farão compreender o , sua ideologia, sua situação econômica e social, sua postura como intelectual diante da vida e da ciência. As reconstruções históricas sempre foram e serão objeto de diferentes versões. A história, assim como a verdade, tem múltiplas facetas e infinitas imagens”. (pg 96)

Mas, finalmente, não podemos deixar de assinalar uma certa paixão do autor pela fotografia que, aliada à sua argumentação ao correr  do trabalho, arrasta o leitor na convicção da importância desta como meio de “documentação” e “expressão”. E mais: a fotografia surge como uma linguagem viva que penetra todos os níveis de conhecimento da realidade propiciados pelas diferentes abordagens científicas, filosóficas, artísticas e mesmo no âmbito comum.

Ficamos pensando e inquirindo sobre as razões do esquecimento a que tem sido relegada. Por outro lado, torna-se evidente o compromisso fotografia-realidade na própria materialização do “visível fotográfico” que percorre épocas imortalizado, bastado que o olhar humano se detenha nele para se tornar presente e vivo em qualquer contexto.

Fica aqui então o desafio: Que desdobramentos ocorreriam no conhecimento através do recurso  metodológico a esse meio inusitado de informação”.

BEIRÃO, Maria Fernanda Seixas Farinha. Fotografia: o instante parado no ar. Sem antes nem depois.São Paulo, Jornal da Tarde, 24/03/1990.

 



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